128. Para os vencedores

Por enquanto vou vencendo
por que, se de vencimento em vencimento,
a consciência é que vai sobrevivendo
é por crer que enriquece do acumulo,
do roubo de rimas pobres e medíocres como estas.
E depois de tudo isso,
será que, de rima pobre em rima pobre,
a rima fica rica?

127. Parte podre

Vou com o sabão
ao enxaguar as roupas,
sepultado no esgoto.
Nunca deixe ninguém lavar suas roupas,
pois, você é que deve enterrar seus cadáveres,
muitas vezes, nos seus lugares de morada,
deixando, ao morrer, muito pouco,
de um só corpo para a sua cidade natal.
Outra vez, quem eu sou,
ao ser recortado dos dedos,
junto-me novamente aos cabelos,
e com a poeira,
tenho, portanto, um corpo,
que ao pó não voltou,
é mesmo o próprio.
Se tudo que está fora de mim e me invade,
é excreção, então vale destas,
o meu eu mais querido, a 'puesia',
que se fez da mistura de palavras
com a mais fétida bosta,
sendo a nossa podridão o que mais
afeta aos outros.
Não só do homem, também da natureza,
todos os sabores e cheiros se tornam,
que é, em toda vida, o fim do tempo,
porque ainda tenho tanto pudor?
Boa parte de mim
são destes tantos
que não constatam a falta
e, se sentem, não se assemelham às saudades.
Esta que é, para os que ficam,
a minha parte mais podre,
por ser somente uma parte.

140. Blafemando de mansinho

Jesus transformou a água em vinho
porque já sabia que,
por causa da tal da inspiração em Deus,
o homem inventaria a rolha.

138. Verbohemorragia

Escrevo para evitar a hemorróida da existência, por isso, quase tudo que é excreta do verbo é como hemograma. Restando para a Ciência um único trabalho que é a anuscopia. E tudo que aquela quer é transformar a autoridade do ânus, e por conseqüência o mesmo, em bola de cristal.

137. Solar do Unhão III

Se a maré, sob o véu da “Senhora dos afogados”, enchia acima da medida das cabeças dos escravos do porão, é porque sendo esfriado o barro de seus corpos do calor que é toda a herança permitida de seus ancestrais, tinham as almas fundidas. De onde antes, na cabeça de seus senhores, só havia molde e brutalidade, emerge a matéria que serve nas missas, nos batismos e ainda havendo sido usada de liga na imagem do padroeiro, exibida nas procissões que partem da capela do Solar. Daí suas almas serão, enquanto durar a colônia, as prisões de seus corpos.

136. Solar do Unhão II

De tanto comparecer às histórias de marinhagem, aparecendo em tantos preâmbulos. Se, ao desviar sua atenção, tiver os olhos voltados para cima pela súbita gravidade, encontrar mares, oceanos e alguns pássaros boiando que não possa alcançar, é por tanto querer ter a fala como as ondas que navegam. Se algum mar, ao olhar para cima , não se encontrar além da mesma face que se fez ao esticar o fio do horizonte, é por não crer que um dia, sendo possível que a baía vire sertão, que em outro, as antigas águas deste novo deserto, estejam beijando outras faces. Então, de tantas marés repetidas, de tanto namorar a lua, que os oceanos mudem definitivamente seu endereço para este satélite. O que seria então o chão destes mares? Seria a possibilidade de catar todas as estrelas que queira e fazer os pássaros, os mares e mesmo os oceanos terem inveja, que por serem legítimas navegantes, também tem direito de cruzarem os corpos dos marinheiros.

134. Solar do Unhão

Do olhar, da proximidade dos muros que cantam a baía, sei que nem todo reflexo é seguro, mas nem todo aportar é, sei que das águas o é, tenho segurança disto.
Como um garoto que, encantado, ouve os contos sobre fartas pescarias daqueles que ali mesmo chegavam.
Porque, o reflexo das massas que costura os continentes, nos ancora como imagens em espelhos, mais seguros que qualquer pedra do porto e mais fértil que qualquer aterro.
Por isso, simplesmente chegar a uma enseada e amarrar as cordas no cais de um solar, não é conforto para o parentesco de fundo do mar que percorre o litoral no “naufrágio das ondas”, na memória de todos que se escoraram nas danças de suas marolas.
Está nas línguas de prata que sinalizam as praias, no chicotear dos ventos sobre, nos cobertores cristalinos ou mesmo turvos, são navalhadas dos lemes no eterno deslizamento da areia da inspiração e do que desta deriva. São chamados das sereias famintas de marinheiros, porque toda história será entregue pelos súditos mais próximos ao Rei Mar. Oferendas à sensibilidade de sua arte, na ancestralidade do assoalho dos oceanos, muito antes do que representa qualquer mito da criação. Que não está nas falas rasgadas, travestidas em trapos, que chamamos velas ou discursos de estiva, mas tatuados na extensão dos rastilhos de podridão, nos corpos que flutuam na beira-mar da imaginação das esposas dos mesmos marinheiros, que só retornam pela elevação das marés. Porque há, ao menos, uma lua para velar e, ao mesmo tempo, iluminar seu cortejo de algas cintilantes. Pois, para todos os viventes, os seus restos serão servidos na bandeja de todos os santos.

126. Incapacidade necessária

Isto está para minha extrema incapacidade necessária de fazer funcionar a vida.

A Lógica é a genética da preguiça de criar, e a criação precisa de intensidade sendo o exercício do impossível imediato, mas, às vezes, porque não sermos um pouco indolentes?

Não 'creio' na Lógica por causa dos Ateus. Os mais consistentes propagadores das leis de Deus.

Mesmo não sendo parnasiano...

“Fuja da abundância estéril desses autores, e não se sobrecarregue com um pormenor inútil. Tudo que dizemos a mais é insípido e degradável; o espírito saciado repele instantaneamente o excesso. Quem não sabe moderar-se jamais soube escrever.”

Nicolas Boileau-Despréaux
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...deste blog serão os poemas produzidos na Residência Universitária 5 e alguns, poucos, outros reciclados durante este tempo. Esta coleção (provavelmente são algumas em gestação) não tem nome.

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