Quero olhos
que fechados
deixem entrar 'o sono dos justos'
porque bem abertos
distinguirão
os que só sonham bem pelados.
236. De olhos bem fechados
235. Aplausos
As flores,
embasbacadas,
o que fazem?
De modo a não se entregarem
aos olhares
Elas abrem e fecham
muito lentamente
e
ao sol
aplaudem!
232. O gênio das pequenas coisas
O gênio das pequenas coisas
não realiza desejos,
a não ser
cala-te contigo
durante os silenciosos-mantras.
Espanta os males
sem precisar cantar.
231. Um luxo único
A morte é um luxo,
um luxo único da vida para os que podem!
Os pobres simplesmente 'apobrecem'!
230. Luzidos
Se meus olhos ficarem impregnados
é com as luzes que vou banhar nossos filhos,
esses que crescem nos ventres
dos olhares desencontrados?
229. Felicidade para todos
A felicidade do humano
só é diferente da dos animais,
pois o primeiro
aprendeu para si
e para estes demais
como deixar de amar.
228. Desconversar
Vim para o mundo
e as formigas já tocavam suas antenas
ao dar de cara.
Ao partir
sei que levarei todo o tempo,
pois que elas só fazem desconversar!
227. Encordoamento
Para os que encordoam-se,
não faltam nós,
principalmente,
na garganta,
como se
apropriados
para os bambos instrumentos da vida.
226. Amor eterno
Em exposição no “Museu dos Dispositivos Impraticáveis”, o Amor (eterno). Ao lado da peça podemos ler: nome fantasia para a fórmula patenteada por um cupido safado do 'combustível' para uso exclusivo em moto-perpétuos produzidos em série!
225. A chave
Levo a chave
do meu cinto de castidade
comigo.
Seria o princípio de alguma ou da minha moral?
Só sei que
o suficiente da falta de princípios
seria não ficar constantemente aflito,
se,
não por acaso,
tiver a perdido.
224. Sobre as paixões
O problema de bater-se o coração
é que nos ensinaram
desde sempre
que ele é 'involuntarioso'.
223. Apoenístico V
Num tal
cemitério de guarda-chuvas,
os enterros são feitos
de modo que as chuvas não apareçam!
Ou estariam, antes, as chuvas enterradas?
222. Devaneio
O entendimento é
o mais longo devaneio
da existência humana,
por se dar,
pela linha da razão,
instantaneamente!
O último estádio do entendimento
é entender que não se entende,
assim sendo um ato estético,
e não um capacidade da mente!
220. Apoenístico IV
Se há tantos galhos
quanto há pássaros,
Não será possível que,
por segurança,
cansarão de trocar
os galhos e os pássaros
dois a dois?
Motivos não são como asas,
que se bastam aos pares,
mas sabendo voar ou não,
basta um galho seguro de si
para equilibrar um passarinho.
O que me leva à dúvida:
se, para as árvores,
os pássaros seriam bons substitutos
de seus galhos.
Será que,
certo dia,
os galhos,
muito seguros de si,
voarão para longe?
219. Apoenístico III
Não adiantou nada
indiferente aos nossos esforços de fachada
a chuva lavou as tristezas até o prumo
por não entenderem-se no íntimo.
Uma chuva,
Qualquer que seja,
nunca entende uma fachada!
217. Apoenístico I
...que adianta
saber que o coração
é de madeira
quando o que bate
é a saudade (ausência) pica-pau?
(...que adianta se não sou um golem de madeira? Não preciso ter nenhuma forma mítica, apenas um corpo tranquilo de bom coração! ...ou sem hermetismos apenas! Um peito sempre aberto de coração transparente e sangue mais ainda!)
215. A carcaça II
Por ser o tempo
um mero cerimonial
estará em sua solenidade
como uma 'presença transcendente',
a imagem e semelhança
do vazio de uma carcaça
que, há vários dias,
aprisionava os órgãos
cada um, em suas vidas,
do corpo, pedaços de si.
Disso não sei das vidas alheias
pela solidão destes
mas por seus cheiros.
Pelos entendimentos
que não são alheios ao ar
posso dizer que
ao menos
um pulmão morreu na praia,
junto com as carcaças
que tentou entender.