248. Produção

Em escala de produção lisérgica,
o êxtase reproduz o prosaísmo.

246. No rancho da Candoca

Numa janela da sede do rancho,
ela olha a vida enquanto a vida a olha.
Nunca é demais repetir seu nome.
Candoca, dá um aceno para a vida!

245. infiltração

O que aconteceu é que a água
amadurece de tanto ser cultivada
debaixo da terra.

O que acontece é que a água
apodreceu com a infiltração
do nosso trabalho.

242. O medo no ninho

Se as grades voando
pousarem em nossas janelas,
que protejam todos os outros
do que somos em seus ninhos.

Se estamos protegidos
da rapinagem das grades
veremos que
das quatro paredes,
através das janelas
somos as suas jaulas.

O medo é a rapinagem das grades
em nossa essência de janela.

241. Sermão da doença (perguntas frequentes I)

Se a gripe fosse da memória,
seria bastante esquecê-la?

240. Em estado de chuva

Estava
ainda ontem
em estado de chuva
Já não podia mais
encharcar-me
dos seus desejos
amando
dissolvi seus órgãos
nas mais simples trajetórias.

Na vizinhança dos meus órgãos
que não eram labirinto da minha existência
Não seria por aquele
ter se perdido o meu próprio.

239. O tamanho da cura

A presença
"que seja eterna
enquanto dure"
que a saudade
só nos serve de alongar
todas as medidas possíveis do tempo.
Sendo o esquecimento
o justo
impossível
tamanho da cura!

238. Rádio à dois

As músicas românticas
passaram a fazer sentido
na programação
um inconsciente radiofônico
à dois
que nos conta,
nas letras das músicas,
o que os olhares fixos
e as bocas
deixaram de contar...

237. Ser escolhido

A fêmea,
ao crescer mulher,
descobre que pode ter
a companhia de seu filho,
ao menos na gestação,
para o prejuízo
de um homem qualquer.

O homem,
por definição,
vem à luz sozinho
e é resgatado
da sua solidão luminosa
quando é escolhido
por uma mulher.

236. De olhos bem fechados

Quero olhos
que fechados
deixem entrar 'o sono dos justos'
porque bem abertos
distinguirão
os que só sonham bem pelados.

235. Aplausos

As flores,
embasbacadas,
o que fazem?
De modo a não se entregarem
aos olhares
Elas abrem e fecham
muito lentamente
e
ao sol
aplaudem!

232. O gênio das pequenas coisas

O gênio das pequenas coisas
não realiza desejos,
a não ser
cala-te contigo
durante os silenciosos-mantras.

Espanta os males
sem precisar cantar.

232. O ato

Nenhum prazer momentâneo,
se repete indefinidamente,
nas precisões do sexo!

231. Um luxo único

A morte é um luxo,
um luxo único da vida para os que podem!
Os pobres simplesmente 'apobrecem'!

230. Luzidos

Se meus olhos ficarem impregnados
é com as luzes que vou banhar nossos filhos,
esses que crescem nos ventres
dos olhares desencontrados?

229. Felicidade para todos

A felicidade do humano
só é diferente da dos animais,
pois o primeiro
aprendeu para si
e para estes demais
como deixar de amar.

228. Desconversar

Vim para o mundo
e as formigas já tocavam suas antenas
ao dar de cara.
Ao partir
sei que levarei todo o tempo,
pois que elas só fazem desconversar!

227. Encordoamento

Para os que encordoam-se,
não faltam nós,
principalmente,
na garganta,
como se
apropriados
para os bambos instrumentos da vida.

226. Amor eterno

Em exposição no “Museu dos Dispositivos Impraticáveis”, o Amor (eterno). Ao lado da peça podemos ler: nome fantasia para a fórmula patenteada por um cupido safado do 'combustível' para uso exclusivo em moto-perpétuos produzidos em série!

225. A chave

Levo a chave
do meu cinto de castidade
comigo.
Seria o princípio de alguma ou da minha moral?
Só sei que
o suficiente da falta de princípios
seria não ficar constantemente aflito,
se,
não por acaso,
tiver a perdido.

A Lógica é a genética da preguiça de criar, e a criação precisa de intensidade sendo o exercício do impossível imediato, mas, às vezes, porque não sermos um pouco indolentes?

“Fuja da abundância estéril desses autores, e não se sobrecarregue com um pormenor inútil. Tudo que dizemos a mais é insípido e degradável; o espírito saciado repele instantaneamente o excesso. Quem não sabe moderar-se jamais soube escrever.”

Nicolas Boileau-Despréaux
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O Conteúdo...

...será uma coleção de poemas produzidos em diversas épocas. Esta coleção (provavelmente com alguns poemas em gestação) não tem nome definido.

Modifiquem! Publiquem!